Fábulas - O Caminho das Pedras - O Ancião-Menino

Presente

Os anciãos, quando enviados pelo Rei do lado de lá do riacho, ficam estranhos. Perdem alguns poderes mágicos, não controlam outros, a visão da memória do lado de lá fica turva e adoptam características idênticas às criaturas do lado de cá do riacho. Também não poderia ser de outra forma ou não conseguiriam adaptar-se ao meio aquando do recrutamento de meninas-senhoras. Desta feita, e frustrado pela tentativa falhada do envio do anterior Ancião-Velho, o Rei entendeu que desta vez iria enviar um Ancião-Menino com características diferentes. Em primeiro lugar, e ainda que ancião em vidas, este Ancião-Menino é muito menos experiente nesta vida que os restantes. Certo é que as capacidades são idênticas, mas a sua cara e o seu corpo não deixam margem para dúvidas. Por outro lado, a menina-senhora já havia tido contacto com este tipo de anciãos, o Ancião-Velho que acabou por não seguir. Mas a recordação dele fê-la entender alguns aspectos do lado de lá do riacho, o que de certa forma facilita a tarefa ao actual Ancião-Menino.
A missão deste enviado adopta contornos diferentes. Inclusivamente o Ancião-Menino terá ainda que desenvolver trabalho conjunto com a menina-senhora ainda do lado de cá do riacho, ajudando a tratar criaturas que sempre estiveram ali.
A menina-senhora ocupada nos seus tratamentos às criaturas pequenas e grandes que a vão procurando, faz alguns progressos na qualidade do seu trabalho, situação que consolida a escolha do Ancião-Menino, muito embora já tivesse ordens expressas do Rei nesse sentido. Contudo este novo ancião apresenta-se errático e demora a tomar a derradeira decisão. Percebe à última da hora que o tempo urgia e apressa-se a correr para a menina-senhora.
No início, ela pensava tratar-se de mais uma criatura em busca de auxílio e dá início ao seu trabalho. Depressa compreende que esta criatura ainda que com características idênticas às restantes, era substancialmente diferente. Parecia um ancião. A menina-senhora inquiriu-o com a sua experiência e ele viu-se obrigado a contar parte do processo. Para este ancião a memória até é mais lúcida uma vez que mantém contacto diário com o lado de lá do riacho, e consequentemente com trabalho de cura que faz sempre que lá vai.
Devido às características anteriores a esta vida do Ancião-Menino e com o tal outro trabalho que lá desenvolve activamente, este vem em missão atado com uma corda tipo elástico ao lado de lá do riacho, o que o impede de permanecer mais do que algumas horas hospedado na não-casa da menina-senhora. Apenas o suficiente até que a tensão da corda tipo elástico o volte a puxar. Esta situação deve-se a este Ancião-Menino não ser apenas um ancião recrutador, mas um curandeiro ainda em funções no lado de lá do riacho, o que o obriga a voltar assim que o sol se põe para levar a cabo o trabalho de cura que ainda desenvolve lá.
Finalmente a menina-senhora acede à travessia do riacho, pedra por pedra, sabendo de ante-mão apenas que serão 5 ou 7 ou 9 - o próprio Ancião-Menino não se lembra com detalhe e o Rei não lhe diz, entendendo que ele próprio enquanto curandeiro em funções, também deveria fazer a travessia iniciática novamente ao acompanhar a menina-senhora. Sabe apenas que o caminho é sinuoso, as pedras são traiçoeiras e cada uma contém provas e provações que devem ser resolvidas até chegarem ao lado de lá do riacho.
No lado de lá existe o inexistente, explica-se o inexplicável e alcança-se o inatingível. Plenitude e conhecimento puros onde as mágicas existem, onde os poderes são explicáveis e as curas são atingíveis. E do lado de lá do riacho, todas as acções têm a capacidade de reflectir do lado de cá.

4 comentários:

Momentos Anónimos disse...

Fabuloso! Roubei e "postei" no meu Face :-) devidamente identificado como sendo teu, o Fabuloso Nuno!

Ehehehe

:-)
mil bjs
cpalma

NS disse...

Obrigado querida.

Faltam alguns capítulos ainda, que já os tenho escritos. Depois vês.

Olha, dá-me o teu face, não tenho.

Bjs,
Nuno

Anônimo disse...

Lilian senta-se. De si não teria saudades

se não fosse para se procurar

escreve a verdade pela verdades

e o amor pelo gesto de amar.


M.

NS disse...

Bem...

Lilian procura-se, escreve, escreve verdades, escreve amor com o gesto de amar...
Perece-me que Lilian é uma criatura muito interessante.

Obrigado M.,
Nuno