Fábulas - O Caminho das Pedras - O Ancião-Velho

Passado pouco lá atrás


Certo dia, numa encosta escarpada, precipício para a frente e bosque plano para trás, a menina-senhora no meio do seu trabalho de curandeira, foi abordada por um Ancião-Velho. Ser nobre de conhecimento exacerbado, notório e dissimulado ao mesmo tempo, com capacidades mágicas que a menina-senhora não reconheceu como sendo deste lado do riacho. Nem certeza tinha se ele precisava de ajuda. Apenas parecia perdido e ao mesmo tempo encontrado e oferecendo a travessia do riacho, coisa que ela nunca tinha ponderado. Mas a menina-senhora não tinha qualquer intenção de largar o seu trabalho deste lado, ainda que a aliciasse bastante continuá-lo do outro. Ela sabe que está no seu caminho mas ainda não está preparada para saltar de um penhasco, nadar até perder o fôlego, trepar a margem oposta e chegar ao desconhecido. O Ancião-Velho não foi enviado do lado de lá por acaso, apenas não-escolheu a única escolha possível naquela pequena floresta.
De tempos a tempos, que os outros chamam vidas, alguém é enviado do lado de lá do riacho para seleccionar uma curandeira que tenha capacidade de ir trabalhar para o lado de lá. São enviados anciãos, experientes criaturas perturbadas pela travessia do riacho em sentido contrário ao natural, procuram a Tal e levam-na, mas pouco descrevem o verdadeiro trabalho a ser feito. Apenas porque assim é, porque assim o podem fazer.
Outros anciãos houve a abordar esta menina-senhora, e outras de outras florestas.
O Ancião-Velho acabou por esperar dentro da não-casa da menina-senhora, o momento oportuno para levá-la. Um dia até lhe pegou na mão e levou-a caminhando sem andar, e voando sem asas, ao outro lado do riacho sem que a travessia tivesse que ser feita. Mostrou-lhe uma casa que não era uma não-casa e não tinha palafitas de bamboo nem ameias. Mas a menina-senhora viu sem ver, e mais importante não sentiu o chamamento interior. Não compreende porque teria de deixar as suas criaturas pequenas que precisavam tanto dela e a não-casa, e deixar de ser curandeira.
A menina-senhora não percebeu que continuaria a tratar de criaturas, só iria tratar de maiores e mais raras para quem apenas algumas meninas-senhoras estão habilitadas a fazer, mas o Ancião-Velho não conseguiu explicar-lhe. Até porque não podia, e então trouxe-a de volta. Triste, teve que regressar ao seu trabalho nobre do lado de lá do riacho.

2 comentários:

Anônimo disse...

Lilian julga que os adivinha

vêm da casa sem janela

e ali, Lilian diz que está sozinha

perdida de si, à procura dela.


M.

NS disse...

Bem caro M.

Lilian poderá até estar à procura dela, mas à luz do meu anterior comentário, basta aceitar subir uns degraus a mais na Escada Branca...
E, já agora, pode não adivinhá-los, mas reconhece-os certamente.

Obrigado,
Nuno